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Do palco ao propósito: a vida de Alexandre Canhoni depois dos holofotes

Ex-Paquito, Alexandre, trocou a fama por uma missão na África e hoje lidera uma ONG que atende mais de mil crianças por dia. Em entrevista exclusiva, ele revela os desafios de mais de duas décadas e o sonho de construir um legado que alcance gerações.

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POR FLÁVIA GARCIA

 

No final da década de 80 e início dos anos 90, Alexandre Canhoni conheceu uma vida que milhões de brasileiros só podiam imaginar. Aos 17 anos, chegou ao Xou da Xuxa como um dos Paquitos, cantou, dançou, viajou pelo mundo, participou de filmes, frequentou hotéis e restaurantes luxuosos e experimentou, ainda muito jovem, o que significava ser famoso. Era o sonho da infância realizado, mas, segundo ele, por trás dos holofotes havia um vazio.
 

Após decidir viver uma carreira solo, Alexandre afirma ter vivido uma experiência de fé que mudou radicalmente sua vida, em 1995. A partir dali, o artista que buscava fama começou a direcionar seus talentos para o que passou a considerar um propósito maior.
 

Primeiro, vieram ações sociais no Brasil até que ele decidiu conhecer um dos países mais pobres do mundo. Assim, em 2002, Alexandre chegou em Níger, na África. Lá, encontrou crianças vivendo em extrema vulnerabilidade, famílias sem recursos e uma realidade marcada pela falta de perspectivas, o que transformou sua missão em compromisso de vida. Atualmente, ele e sua esposa Giovana vivem lá e possuem 19 filhos adotados e 14 netos.
 

Mais de duas décadas depois, por meio da AGD, Alexandre, Giovana e equipe trabalham atendendo a mais de mil crianças todos os dias, em uma estrutura que reúne alimentação, educação, esporte, atividades recreativas e acompanhamento espiritual, em uma região desértica. Mas Alexandre faz questão de estabelecer a meta de criar condições para que as crianças tenham futuro, não apenas sejam alimentadas hoje. O projeto também capacita mulheres, ensinando alfabetização, costura e outras habilidades que podem gerar renda e autonomia.




 

Entre os próximos passos estão a expansão da escola profissionalizante ABBA, programas mais amplos de capacitação feminina, um sistema de microcrédito e uma escola de idiomas. O desejo é formar pessoas capazes de construir suas próprias histórias — e, assim, transformar famílias e comunidades inteiras.

 

A caminhada, entretanto, está longe de ser simples. Alexandre relata crises políticas, dificuldades financeiras, problemas logísticos, ameaças e episódios extremos, incluindo a destruição da base da missão em 2015 e um episódio ocorrido em 2025, quando afirma ter sido levado e interrogado sob suspeita de espionagem. Ainda assim, diz que nunca considerou abandonar o projeto, a sua missão.

 

Hoje, ele procura pessoas e empresas dispostas a participar de uma transformação de longo prazo, não apenas para uma ajuda emergencial humanitária. Sua proposta é clara: os recursos não oferecem retorno financeiro tradicional, mas podem gerar aquilo que ele considera um patrimônio muito maior — vidas transformadas, autonomia, educação e oportunidades para novas gerações.


 


 

Seu sonho é grande: ver a AGD alcançar duas ou três mil crianças por dia, formar lideranças locais, ampliar as oportunidades para mulheres e, futuramente, levar o modelo para outros países africanos. Mais do que construir estruturas, Alexandre quer formar pessoas que possam continuar a missão mesmo quando ele não estiver mais à frente dela. Ele afirma que se realiza ao tocar vidas através da palavra, através da arte, através da ação. “Mas o trabalho que faço no Níger, silenciosamente, longe dos palcos, transformando crianças que ninguém conhece, este é meu legado real. Se eu morrer amanhã, quero que se diga: "Ele viveu para transformar vidas. Ele deixou um mundo melhor."  Este é o Alexandre Canhoni que sou hoje”.

 

Nesta entrevista exclusiva à Revista Digital Destaque, Alexandre Canhoni revisita a fama, fala sobre a transformação de sua fé, revela os bastidores da missão no Níger, os desafios que quase ninguém vê e apresenta os projetos que podem mudar o futuro de milhares de pessoas. Confira:

 



O COMEÇO DA FAMA E A TRANSFORMAÇÃO DE VIDA

 

RDD: Alexandre, o Brasil conheceu você como um dos Paquitos da Xuxa. Quem era aquele jovem que entrou para a televisão e viveu a fama tão cedo?

 

Alexandre: Era um menino com talento, beleza, acesso às melhores coisas do mundo... mas que tinha um vazio absurdo por dentro. Comecei a trabalhar com 14 anos em bandas de baile, e quando entrei para a Xuxa aos 17 anos, foi a realização de um sonho que eu nutria desde criança. Ser famoso. Ser adorado. Ser aquele que todos querem.  Eu era vocalista dos Paquitos, dançava, fazia shows. Viajei para fora do Brasil, tive aparições em filmes. Frequentava os melhores hotéis, restaurantes, viajava em jatinhos particulares. Sabe aquela frase "a pessoa é tão pobre que só tem dinheiro"? Eu era exatamente assim.  Eu era egocêntrico, irritado, ansioso. Queria mais, sempre mais. E pior que isso — e vou ser bem honesto com você — eu estava envolvido com práticas espirituais muito obscuras. Era coisa pesada, sabe? Muito pesada mesmo. Aquele jovem era alguém que conhecia o preço de tudo mas não conhecia o valor de nada.

 

RDD: Em que momento você percebeu que a vida de celebridade já não respondia às perguntas que você carregava dentro de si?

 

Alexandre: Saí da Xuxa em 1992. Tinha uma estratégia de marketing para fazer carreira solo. Gravei um disco, fiz shows pelo Brasil inteiro. Mas as perguntas que eu carregava não eram respondidas por nenhum luxo, nenhum carro, nenhuma viagem, mulher... nada.  Fiquei alguns anos completamente perdido. Mas sabe o que é incrível? Deus estava trabalhando naquele período. Mesmo quando eu não via. Mesmo quando eu estava caindo.

 

RDD: E que aconteceu dentro de você para que essa mudança se tornasse irreversível?

 

Alexandre: Em fevereiro de 1995, eu tive um encontro com um homem que transformou a minha vida. Eu ouvi uma música, segui para ver de onde vinha e me deparei com um culto, e ali mesmo sem gostar e sem querer, eu entrei e vivi algo completamente diferente de qualquer ritual, qualquer prática que eu havia experimentado antes. Era real. Era diferente. Era vivo. Foi um encontro sobrenatural com Deus que mudou absolutamente tudo. Senti como se um container saísse de cima de mim. A transformação foi tão radical que eu queimei roupas, documentos, materiais de pactos, tudo que representava aquele passado. Rompi com tudo que não agradava a Deus. Reconheço que na época poderia ter agido de forma diferente em alguns aspectos, mas eu fiz tudo convicto de que precisava cortar completamente com aquilo.

 

RDD: Se pudesse encontrar aquele jovem Xand hoje, o que você diria a ele?

 

Alexandre: Abraçaria ele muito forte e dizia: "Filho, você não precisa de tudo isso. Você está buscando felicidade da maneira completamente errada. Aquele vazio que você sente? Aquela angústia que não sai? Aquele desespero de ser amado? Você vai encontrar resposta em Jesus. E quando encontrar, tudo que você pensa que é importante hoje vai parecer lixo. Não desperdice nem um dia. Você tem dom, tem talento. Mas seu talento é um instrumento vazio se não for consagrado ao Senhor. Use tudo que você é para algo que vale a pena. Para eternidade”.


 



 

O ENCONTRO COM NÍGER E A POBREZA EXTREMA

 

RDD: O que fez você olhar para esse país e entender que deveria colocar sua vida e sua energia a serviço da população do Níger?

 

Alexandre: Depois da minha conversão, eu estive muito envolvido com trabalho social no Brasil. Me formei em capelania, trabalhei em presídios como o Carandiru, em hospitais, nas ruas do centro de São Paulo. Deus estava me preparando. Estava quebrando em mim o nojo, a repulsa, me ensinando a abraçar os desprezados da sociedade. Mas em um determinado momento, em uma oração,  eu tive um desejo genuíno de levar o amor de Deus para crianças, jovens e adolescentes do país mais pobre do planeta. E Deus ouviu esse clamor. Conheci pessoas que me falaram do Níger, uma nação que ocupa o último lugar no ranking de desenvolvimento humano da ONU. Um país com mais de 97,9% de população islâmica, onde ser cristão é desafiador, onde as crianças vivem em situações de extrema vulnerabilidade. Quando pisamos pela primeira vez no Níger em 2002, tínhamos uma certeza: o Senhor nos havia enviado para aquele lugar específico. Não foi acaso.

 

RDD: E qual foi a cena que mais te impactou ao chegar lá?

 

Alexandre: Ver crianças literalmente morrendo de fome. Meninos e meninas vivendo nas ruas, completamente abandonados, sem esperança nenhuma, e mães desesperadas.  Porque a pobreza no Níger não é apenas material. É espiritual. É uma pobreza de esperança.

 

RDD: Mais de duas décadas depois, o que ainda o mantém neste propósito?

 

Alexandre: A promessa de Deus. A certeza de que Ele está conosco. O fruto que vejo nas vidas transformadas. Ver crianças que chegaram desnutridas, quase morrendo, hoje brincando, saudáveis, com esperança. Ver meninas que seriam casadas aos 12 ou 13 anos com homens muito mais velhos, agora estudando, aprendendo um ofício, tendo oportunidades. Sim, há momentos difíceis. Há crises políticas, instabilidade, momentos que a gente sente medo. Mas tem um padrão que nunca falha: quando você obedece a Deus, Ele sustenta.

 

RDD: O que o Níger te ensinou sobre o ser humano que o Brasil talvez ainda precise aprender?

 

Alexandre: O que vi lá me mostrou que o coração humano foi feito para amar e para ser amado. Para conectar, para servir. Um menino de 8 anos vivendo em absoluta pobreza pode ser mais feliz, mais pleno, do que um adolescente criado na riqueza do Brasil com tudo que ele quer. O Níger me ensinou que a felicidade real não está no que você tem, mas em quem você é e em quem você pode impactar. Para mim é isto que o Brasil precisa aprender urgentemente. A gente vive em um consumismo desenfreado, em uma busca pela aparência, pelos "likes e views" nas redes sociais.


 

 

 

TRANSFORMANDO ASSISTÊNCIA EM MUDANÇA DE VIDA

 

RDD: Quando nasceu oficialmente a AGD e qual problema específico você queria enfrentar?

 

Alexandre: Olha, a AGD nasceu porque a gente não podia ficar só vendo. Começamos em 2002 com o que tinha na mão. Bem pequeno. Bem mesmo. O problema que a gente queria — e ainda quer — enfrentar não é apenas a fome. O problema real é que, lá, a criança nasce sem chance e sem acesso a nada. Sem saber que alguém se importa. Então a AGD começou porque a gente disse: vamos fazer diferente. Vamos alimentar, mas vamos educar também. Vamos cuidar da criança, mas vamos ajudar a mãe também. Transformação de verdade não é só assistencialismo. Hoje atendemos mais de mil crianças por dia. Mil. Quando a gente pensa nisso, bate uma gratidão no peito.

 

RDD: Quem são essas crianças e quais são as principais necessidades delas?

 

Alexandre: São crianças que não têm esperança mesmo. Algumas perderam os pais — malária, AIDS, atentados, fome, e outros motivos. Algumas foram abandonadas. Outras vêm de famílias tão pobres que não conseguem nem dar comida. A realidade é que muitas dessas crianças, em qualquer outro lugar do mundo, já estariam perdidas. Mas na AGD elas encontram um lugar.

 

O que elas precisam? Tudo, basicamente. Precisam comer, aprender a ler, a contar, a ter um futuro. Precisam de medicamento — lá morre gente de coisas simples por falta de um remédio. E, para nós, elas precisam saber que alguém as ama. Que elas têm valor. E a gente acredita e ensina que Deus as ama.

 

RDD: E como funciona, na prática, um dia de atendimento dentro do projeto?

 

Alexandre: Nós trabalhamos com diversas frentes no projeto. Vou falar da creche: Bem cedo as crianças chegam. A primeira coisa que a gente faz é orar agradecendo a Deus por mais um dia, e verificar como elas estão. Depois a gente dá café da manhã. Para muita criança aquela é a única comida do dia. Aí começa a aula. A gente tem educadores locais ensinando leitura, matemática, essas coisas de base. Também temos momentos de atividades recreativas e brincadeiras, pois precisam “ser criança” também. À tarde a gente oferece comida novamente, é a hora do almoço. E antes de ir para casa, a gente faz um tempo de oração, de compartilhar sobre o amor de Jesus de uma forma que faz sentido para aquela realidade delas. Levam ainda um biscoito ou fruta para comer mais tarde.

 

Nós também temos outros projetos como Maison des Fleurs, para meninas e mulheres: elas aprendem a ler, a costurar, a ter renda, uma formação de 3 anos e quem passa na formação além de tudo que aprendem elas ganham uma máquina de costura para começar seu próprio negócio. Não é só filantropia. É uma transformação de verdade.

 

Essas quatro coisas — comida, educação, oportunidade pra mulher, esporte e diversão — são como as pernas de uma mesa. Sem uma delas, cai tudo. Uma criança bem nutrida, que pode estudar, que tem mãe gerando renda em casa, que tem tempo pra brincar e ser criança, tem chance de futuro de verdade. A gente não quer criar gente dependente da gente. A gente quer criar gente livre e esperançosa.

 


 

RDD: Quais resultados concretos vocês já conseguiram alcançar nesses mais de 20 anos? Pode contar uma história de uma criança ou família?

 

Alexandre: Tem um menino que chegou extremamente desnutrido. Parecia ter 3, 4 anos quando tinha 7. Tinha sido abandonado. Quando começou a receber alimentação, a ir na aula, e principalmente a ouvir que Deus o ama, aquele menino começou a florescer. Hoje tem mais de 20 anos, terminou a escola e está trabalhando, ajudando a comunidade dele.  Isto é o fruto real. Tem também histórias de mães que chegaram sem saber costurar nada. Aprenderam, começaram a fazer roupas, a vender. Conseguiram tirar os filhos das ruas.  Tem meninas que seriam casadas aos 12 anos agora estudando. Tem crianças que foram tiradas das ruas agora brincando com esperança. E a coisa mais linda? Já tem segunda geração. Crianças que a gente atendeu quando eram pequenas agora têm filhos — e esses filhos também vêm pra AGD. É o geracional acontecendo diante dos nossos olhos.

 

RDD: O que você considera hoje o maior patrimônio construído pela AGD: infraestrutura, pessoas, conhecimento, relacionamento com a comunidade ou transformação de vidas?

 

Alexandre: Pessoas. Vidas transformadas. Sem dúvida. A infraestrutura é importante, sim, mas em 2015 tivemos a casa e a base queimada e depredada. Perdemos tudo, porém o mais importante permaneceu, o amor entre nós. O maior patrimônio é a comunidade de pessoas que crê naquilo. As crianças, as famílias, os educadores locais, os parceiros ao redor do mundo.  A AGD não sou eu, não é Giovana, são as pessoas que decidiram que suas vidas seriam sobre transformar outras vidas. E pode ser você que está lendo esta entrevista e que decida fazer parte deste projeto.

 

RDD: Qual é o maior desafio para manter uma operação humanitária desse tamanho no Níger?

 

Alexandre: O maior desafio é manter tudo funcionando em um país que está sempre em crise. Não é estável. Você nunca sabe o que vem. Financeiro é pesado. Manter 4 creches, 11 projetos de nutrição, educação, esportes — tudo isso custa dinheiro. E custa todo mês. Todo dia. O segundo desafio é logístico mesmo. Lá falta tudo. Falta luz confiável. Falta água. Falta infraestrutura básica. Fazer as coisas funcionarem ali requer resiliência o tempo todo. O fator segurança também é desafiador. O Níger tem grupos insurgentes, instabilidade. Tem momentos que a gente precisa proteger o pessoal, se mover. Aquilo é real. Mas o maior desafio mesmo é manter a fé quando as circunstâncias parecem gritar que é impossível.


 


 

RDD: O trabalho missionário também envolve desafios relacionados à liberdade religiosa. Como vocês lidam com isso sem perder o foco no atendimento humanitário?

 

Alexandre: Essa é delicada mesmo. No Níger com 97,9% islâmico, ser cristão é desafiador. Tem preconceito, tem restrição e a gente lida com clareza. Nunca escondemos que somos cristão. Nós também nunca impomos. Criança islâmica chegando com fome? A gente alimenta. Mãe muçulmana querendo aprender costura? A gente ensina. Quando a gente fala de fé, é com respeito. Deixa claro: "Você pode acreditar no Islã. A gente respeita. Mas a gente acredita em Jesus e quer compartilhar isso." Tem momentos tensos. Recebemos ameaças. Mas a gente não silencia por medo. Entendemos que o Evangelho é muito mais sobre viver de uma forma diferente e esta forma influencia e impacta vidas.

 

RDD: Qual foi o momento mais difícil que você viveu nesses mais de 20 anos?

 

Alexandre: Tem vários, sabe? E cada um marca de um jeito diferente. Um dos mais difíceis é aquele que a gente vive todo dia: ter que dizer não, porque nossos recursos são limitados e não conseguimos atender a todos. Ver o rosto de uma criança e precisar dizer: "Desculpa, hoje não consigo te ajudar." Isto dói demais.

 

Quando perdemos tudo, em 2015, eu olhei pra Giovana e disse: "Vamos reconstruir!" Porque isto é o que a gente faz. Mas teve algo ainda mais difícil que aconteceu recentemente, em 2025. Fui encapuzado e levado pelo serviço secreto. Alegaram que eu era espião. Foram dias muito escuros mesmo. Muito incertos. Não sabia se ia voltar. Não sabia se podia continuar o trabalho. Aquela sensação foi diferente. Mas você sabe o que é incrível? A gente tá de pé. Firme e forte. Por milagre, a gente tá aqui. E o mais lindo é que construímos um legado que transcende a gente. Se amanhã eu não conseguir entrar no Níger, se eu não puder estar lá fisicamente, a obra continua. As pessoas que a gente preparou, os líderes locais, as comunidades transformadas — tudo continua. Não é sobre mim.




 

RDD: Em algum momento você pensou em desistir?

 

Alexandre: Nunca. Desistir não combina comigo. Não é quem eu sou. Já sofri demais, me preocupei, hesitei, mas desistir nunca cruzou minha cabeça de verdade. Porque quando você realmente compreende que tem um chamado que é maior que você, você não desiste. Você sofre, você chora, você fica na luta mesmo. Mas não desiste. Minha convicção é simples: enquanto Deus quiser, a gente fica. Quando Ele quiser que saia, aquilo fica claro.

 

 

INVESTIMENTOS E FUTURO

 

RDD: Um empresário que estiver lendo essa entrevista e pensar: "Eu quero fazer parte disso", qual é a primeira conversa que você gostaria de ter com ele?

 

Alexandre: Eu diria: "Bem-vindo. Você talvez seja o próximo que vai mudar a história de uma criança. De uma família inteira." A primeira conversa é deixar claro que não é um investimento financeiro tradicional onde terá retorno de capital. Dizem que dinheiro não traz felicidade, mas quem diz isto nunca doou o suficiente, porque através dos recursos investidos em vida, nós vemos um brilho nos olhos e geramos uma esperança transformadora. Eu explicaria qual é o trabalho real. Os números. As transformações. Contaria histórias de transformação. Eu perguntaria: "Qual é o seu propósito na vida? Você quer deixar um legado que importa de verdade? Será que investir em criança que está deixando marca na África não seria mais importante do que acumular mais riqueza que você já tem?" Depois disso, ofereço parcerias claras. Pode ser financeira mesmo. Pode ser doando produtos ou serviços. Pode ser sua expertise, sua habilidade profissional. Pode ser que você vá lá conhecer o trabalho pessoalmente.  Mas a primeira conversa é sempre sobre propósito. É: "Você quer ser parte de algo que é eterno? Quer investir em vidas que vão impactar gerações?"

 

RDD: Como você imagina a AGD daqui a dez anos? E qual legado espera deixar? Tem formado outros líderes?

 

Alexandre: Imagino a AGD atendendo duas, três mil crianças. Creches em mais lugares. Sistema de educação forte e estruturado. Mulheres do Níger empreendendo, gerando renda, multiplicando esperança. Igrejas locais fortes. Comunidades transformadas pelo evangelho. Quanto a mim, honestamente, não sei o que Deus tem reservado para mim. O importante é que tem uma nova geração de líderes locais sendo preparada. Educadores. Gerentes de projetos. Pessoas que entendem a visão, que vivem aquela realidade, que conhecem o povo.

 

Hoje, a AGD já é composta principalmente de liderança africana. Eles são os próprios nigerinos. Pessoas que conhecem a cultura deles, a língua deles, a realidade deles. Nós plantamos, cuidamos da terra, e levantamos recursos para continuar o projeto.  Nunca abandonaremos o Níger porque nossos filhos e netos estão lá. Continuaremos como mentores, como apoiadores, não como operadores principais. Isto é o legado real: deixar liderança forte local. Deixar gente preparada para continuar e expandir.


 


 

RDD: Qual é o sonho que hoje parece grande demais, mas que você ainda acredita que pode realizar?

 

Alexandre: Meu sonho é expandir para outros países africanos. Uma rede de transformação espalhados pela África, transformando gerações. Imagino AGD Benin, AGD Cabo Verde (quem sabe?) e em vários países, inclusive com projetos ativos no Brasil.  Outro sonho é ampliar o programa de bolsas de estudo (já temos em pequena escala). Pegar os melhores alunos nossos — criança que passou pela AGD, que foi resgatada das ruas — e botar em universidade. Imagino médicos, engenheiros, professores, advogados que saíram das ruas do Níger através da AGD.  Mas o maior sonho de todos? É que toda criança do Níger que vive em extrema pobreza conhecesse o amor de Jesus e tivesse esperança. Eu sei que é um sonho imenso. Quase impossível. Mas acredito que Deus é capaz. Acredito que Ele quer isso tanto quanto eu.  Quando você tem um sonho desse tamanho, você não consegue desistir. Porque é maior que você.

 




 

 

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Publicado por
Revista DigitAL Destaque
em 25/09/2026 às 16:10

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